Vamos falar sobre… Abuso numa relação

Se pensar numa pessoa que constantemente o cansa, não a que o irrita de vez em quando. Falo mesmo daquela que o esgota, que o suga, que o deixa sem energia. Seja homem ou mulher. Se falar com sinceridade, será que sabe exatamente o que tem tolerado nesta relação, o que tem tolerado desta pessoa, o que tem permitido acontecer nesta troca interpessoal?

Será que está a tolerar desrespeito disfarçado de brincadeira? Será que está a tolerar crítica constante com a justificação de que é para o vosso bem? Será que está a tolerar aquela sensação de que faça o que fizer nunca é o suficiente? É importante salientar que por vezes não está “preso” na pessoa; está “preso” na esperança de que um dia ela vai mudar; ela vai ser e fazer diferente. Quero tornar isto consciente para si: Não vai. É só uma ilusão. Uma ilusão que criou na sua perceção, na sua mente sobre aquilo que idealizou sobre ela. Esta ilusão é uma criação sua. Eu sei que dói ler estas palavras. São sofrimento puro. Faz sofrer porque enquanto se espera pela melhor versão da outra pessoa, convive-se com a pior versão da mesma.

Se aprofundarmos ainda mais o assunto – porque será que aceita tão pouco numa relação? Será o medo de ficar sozinha? Será o medo de parecer rígida ou inflexível demais? Será o medo de perder essa pessoa, de perder o vínculo com ela? Ou será o medo de não ter ninguém para preencher o seu vazio afetivo se ela for embora ou se a deixar?

A verdade é que não repetimos relações por “azar”, mas sim por familiaridade. Nada acontece por acaso nem de repente. Ou seja, por vezes chama-se de amor aquilo que lá atrás se aprendeu a chamar de sobrevivência e por isso acaba por adaptar-se, explicar-se demais, culpar-se, desvalorizar-se e diminuir-se ou até mesmo anular-se para caber nessa relação. Por vezes, até entende isso como maturidade erroneamente. Mas maturidade relacional está longe de ser aguentar tudo. Maturidade inclui saber até onde vão os seus limites. Sendo assim, a pergunta impõe-se: se não tivesse medo de perder esta pessoa o que já teria feito de diferente? Porque muitas vezes o problema não é o quanto o outro é tóxico, mas sim o quanto a pessoa se abandona e se anula para não ser abandonada. Em suma, é importante começar aos poucos a escolhe-se a si próprio, a valorizar-se a si próprio porque merece ser a pessoa mais importante da sua vida.

Dito isto, quando se está numa relação é importante observar se depois dessa pessoa ter entrado na sua vida, a sua vida ficou melhor, mais leve, mais tranquila, ou se ficou pior, mais pesada e mais stressante? Se piorou, então está numa relação abusiva e eventualmente tóxica. A verdade é que os seres humanos não são complementares numa relação; eles não se completam. Esta ideia é totalmente errada e é muitas vezes socialmente e culturalmente imposta. Ninguém tem que completar ninguém. Isto porque só se consegue uma relação saudável se ambos estiverem “inteiros” nessa relação, com maturidade emocional suficiente de ambos os lados para acrescentar à relação e não o contrário para que o outro junte ou complete os seus “pedaços” em falta. Querer ou esperar que o outro complete os seus “pedaços” é sinónimo de fracasso numa relação. Então, as pessoas não se juntam numa relação para se completar; juntam-se para cada um acrescentar à relação. Ou seja, cada um dos elementos desta relação já está muito bem consigo mesmo (“inteiro”), mas depois de terem entrado na vida um do outro, cada um deles ficou ainda melhor com o aporte que cada um trouxe para a relação.

A relação transforma-se num lugar de parceria, num lugar seguro, num lugar tranquilo, num porto de abrigo em que cada um acrescenta à vida do outro. Em suma, se opostamente a relação se tornou um lugar de stress, de ansiedade, de insegurança, de dúvidas, de medo, de desvalorização, de humilhação, então estamos perante uma situação de alerta.

Sendo assim, se está num relacionamento em que sente que tem que fazer tudo o que o outro quer, da maneira que esse outro quer; que a sua individualidade não é respeitada, cuidada nem preservada; que precisa constantemente de agradar ao outro, de satisfazer os seus caprichos; que as suas opiniões são sempre diminuídas ou desvalorizadas e que tem até mesmo de falar com todos os cuidados para que o outro não fique instável e fique “feliz” ou para que tenha a certeza que o outro não o vai abandonar; que tem de uma forma recorrente de se anular para ter uma falsa paz na relação, e que ainda assim se sente culpado com frequência e a investir o seu tempo a fazer o esforço de agradar, convencer ou fazer o outro entender o básico e fundamental de uma relação; então é bem provável que esteja numa relação abusiva.

Um relacionamento não é, não pode ser um sufoco; não é uma prisão. Uma relação é um lugar de paz, de refúgio, de estabilidade, de crescimento, de parceria como já disse. E isto implica acrescentar na vida dos dois. Ou seja, se o relacionamento não for construtivo pergunte a si próprio o que faz ali? Ninguém está “preso” num relacionamento com algemas ou raízes e por isso mesmo ninguém é obrigado a permanecer num lugar que o desorganize emocionalmente, que o agrida psicologicamente (ou fisicamente), que fragilize o seu valor e o seu amor-próprio, que destrua a sua autoestima, que retire a sua paz. Aliás, paz é um dos pilares fundamentais de uma relação. Se não a sente na sua repense essa relação sem se esquecer de se colocar sempre em primeiro lugar.

Neste âmbito terminar uma relação é na maior parte das vezes dar-se o direito de estar em primeiro lugar na sua própria vida. Logo, é um ato de valorização gigante e de evolução ao nível da maturidade emocional. Tentar mudar esta pessoa para manter ou salvar esta relação vai ter um custo muito alto que seguramente não vai querer pagar. Quanto a isto, como disse Freud, “Não é possível mudar uma pessoa sem que ela de fato queira. Mas é possível adoecer e arruinar a própria vida, ao tentar fazer isso”.  Ou como disse Vygotsky, a transformação de uma pessoa ocorre sempre adentro de uma relação com um outro alguém, mas nunca por imposição unilateral. Então seguindo o pensamento de Vygotsky, sem envolvimento voluntário não há internalização, e sem internalização, não há mudança verdadeira. Não há transformação real sem adesão interna.

Num relacionamento saudável, não se trata de moldar o outro, mas de criar condições onde ambos possam crescer. Quando esta reciprocidade não existe, a tentativa de mudança torna-se unilateral e, inevitavelmente, muito limitada. No fundo, podemos ser mediadores no processo de desenvolvimento do outro, mas nunca os seus substitutos. A decisão de mudar pertence sempre a quem muda, se quiser mudar. Pense nisto.

Sílvia Pereira, Dra, 2023

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Silvia Pereira

Sou a Sílvia Pereira, Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta e Diretora Clínica, com um percurso marcado por décadas de prática clínica, investigação e formação contínua, a nível nacional e internacional.

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