O meu filho vai ou não vai à viagem de finalistas?

Mais um ano, mais finalistas, mais viagens de finalistas… Estão mesmo aí à porta e muitos pais ficam preocupados e aflitos com a decisão que têm de tomar:  permitir ou não permitir que os seus filhos vão à viagem de finalistas. Afinal as notícias que vêm a público são negativas, muito negativas. Outros são firmes e dizem “não”.

Porquê uma viagem de finalistas?

Para os finalistas esta viagem é um tempo de pura diversão, de vivências de excessos que aguçam a sua curiosidade desde o início. Já diz o ditado: “o fruto proibido é o mais apetecido”… É algo pelo qual alguns esperam ansiosamente. Alegam aspectos positivos como a socialização, a responsabilidade e o reforço das amizades para minimizar o que bem se sabe sobre os aspectos negativos.

Dizem muitos que é um momento inesquecível. É a despedida do ensino secundário e dos amigos que seguirão os seus caminhos diferentes. É o fim de uma etapa, de um ciclo. É a passagem para uma nova realidade bem diferente – a faculdade. Mas em boa verdade, é para muitos a primeira oportunidade de estarem longe de casa, sem regras nem limites e fora do controlo dos pais.

Os perigos que se podem encontrar?

Sob a alçada do falso teste à maturidade, todos sabem a que vão, a que deixam ir e o que vai acontecer nestas viagens; os perigos que são propostos viver: o excesso de álcool alimentado pelo forte espírito de grupo e pelo poder da influência; o fácil acesso às drogas no local; a violência com a exibição de força; os danos a bens materiais pela rebeldia e irreverência dos que se querem mostrar aos outros pela sua necessidade de afirmação, para serem vistos como os “protagonistas da história”; a não prevenção sexual pela falta de utilização do preservativo que abre caminho à gravidez e às doenças sexualmente transmissíveis, entre outros que infelizmente já levaram alguns jovens à morte.

Os jovens devem ou não ir à viagem de finalistas?

Onde os excessos estão à mão da falta do controlo de limites e das suas vontades, os jovens não deveriam ir a viagens de finalistas. Não têm sequer maturidade suficiente para estarem sozinhos em tal ambiente. Como se sabe, hoje a maturidade alcança-se muito tardiamente. Estudos apontam para a idade de 25 anos. Logo, jovens entre os de 17, 18 anos não têm maturidade suficiente para estarem cerca de oito dias num ambiente em que estarão entregues a si próprios. Neste contexto, todos os limites que os jovens têm a capacidade de controlar são muitas vezes ultrapassados. É sabido que a adolescência é um tempo de experiências com a vontade de viver tudo rapidamente e intensamente e em que muitas vezes se testam e ultrapassam os limites. Mas devem ser limites sujeitos a um determinado controlo. Controlo este que não existe numa viagem destas.

E do lado dos pais…

Pai e mãe… duas versões diferentes. Do lado dele, não se quer comprometer; quer ficar bem visto e por isso muitas vezes diz “sim”. Tem menos coragem para dizer “não” e mais receio de que o filho deixe de gostar dele. Do lado dela, os anos de educação do filho ensinaram-lhe que tem de enfrentar as situações e que se é para dizer “não” porque entende que é “não”, tem mais força para o fazer. No entanto, a reacção dos filhos ao “não” deixa muitos pais aflitos e sem a força que é necessária para se afirmarem como mãe e como pai naquele momento. É-lhes por isso difícil antecipar o que vai acontecer no futuro – os jovens vão conseguir dar razão aos pais que dizem “não”.

Obviamente, o perigo é ainda maior para aqueles jovens a quem nunca foi permitido fazerem nada “sozinhos”. Quando os pais não permitem à criança o treino da autonomia e da maturidade não facilitando o convívio e o relacionamento com outras crianças ao longo do crescimento, compreende-se que “do nada” e sem treino deixá-los ir para uma viagem de finalistas, para um espaço e tempo bem longe dos pais será o mesmo que expor o jovem às conhecidas propostas da viagem: álcool, drogas e sexo com uma grande probabilidade dele as levar a cabo.

Viagem de finalistas, sim ou não?

Embora seja de salientar que muitos jovens não se revêem num ambiente de excessos, acabando por ir “empurrados” porque a maior parte dos colegas e amigos vão, muitos outros ávidos de liberdade revelam nestas viagens a grande falta de auto-controlo e de maturidade.  Estes jovens querem muito ir, contudo, não têm maturidade cerebral suficiente para viver esta liberdade que implica responsabilidade e a que muitos deles não estão sequer habituados.

Por tudo isto, importante será dizer que em termos psicológicos e em termos de segurança uma viagem de finalistas só terá sentido como viagem de fim de curso, no fim da faculdade.

Sílvia Pereira, Dra, 2020

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Silvia Pereira

Sou a Sílvia Pereira, Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta e Diretora Clínica, com um percurso marcado por décadas de prática clínica, investigação e formação contínua, a nível nacional e internacional.

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